Quatro décadas de história, espiritualidade e compromisso com a ancestralidade são celebradas pelo terreiro Ilê Asé T’Ogum Bará Alaketú, localizado em Piraquara (PR). Fundado oficialmente em março de 1986, o espaço religioso se consolidou como um importante ponto de preservação das tradições de matriz africana no Sul do Brasil.
Em entrevista ao portal danimeller.com, a Iyalorixá Dilma T’Yemojá, nascida Dilma Cristino Gulini, atual dirigente do terreiro, relembrou a trajetória da casa e a missão deixada pelo fundador, destacando a importância da continuidade do trabalho espiritual e do fortalecimento da ancestralidade.

A trajetória do terreiro está diretamente ligada à vida e missão do Babalorixá Luiz T’Ogum Xoroquê, nascido como Luiz Carlos Gulini, em 09 de junho de 1962, na cidade de Lages (SC).

Ainda na infância, ao se mudar para Rio do Sul com a família, começaram a se manifestar sinais de sua mediunidade. Aos 11 anos de idade, iniciou sua caminhada espiritual ao fazer seu santo de Ogum Xoroquê, sob orientação do Pai César de Ogum.
Ao longo de sua vida, Luiz T’Ogum Xoroquê construiu uma sólida trajetória religiosa, marcada pela dedicação aos Orixás, à formação de filhos de santo e ao atendimento espiritual da comunidade. Após a partida de seu primeiro orientador para Angola, seguiu sua caminhada sob os cuidados de Mãe Lourdes de Oxum, fortalecendo ainda mais sua base espiritual.

Em 1985, já com uma longa vivência religiosa, mudou-se para Curitiba, onde daria início à construção do terreiro. A primeira sede foi instalada na Vila Tarumã. Posteriormente, as atividades religiosas também passaram pela Faculdade Espírita do Paraná, até que, em 1991, foi conquistada a sede própria no bairro Jardim Bela Vista, em Piraquara, onde o terreiro permanece até hoje.

Durante 42 anos de dedicação à espiritualidade, o Babalorixá deixou um legado marcado pela firmeza, ética e profundo respeito às tradições. Seu falecimento, em 12 de junho de 2015, representou um momento de luto e recolhimento: o terreiro permaneceu fechado em respeito à sua memória.

A retomada das atividades veio sob a liderança de sua esposa, a Iyalorixá Dilma T’Yemojá, nascida em 09 de julho de 1962, que já atuava ao lado do marido na condução espiritual da casa. Hoje, aos 63 anos ela assume a missão de dar continuidade ao trabalho, ao lado do Pai Ogã Elisson T’Òsògìyán — filho do casal —, do neto Pai Ogã Luiz Henrique T’Ayrà, da nora Iyalaxé Joana D’Arc T’Oyá e de toda a família, que carrega e preserva o legado construído ao longo das décadas.
“Assumimos essa missão com muito respeito e amor. Esse terreiro era a vida dele, e hoje seguimos honrando tudo o que ele construiu”, destaca Mãe Dilma.

As comemorações dos 40 anos incluem uma celebração especial de Candomblé no dia 25, dedicada aos Orixás Ogum e Oxóssi. Durante o ritual, os Orixás serão vestidos para abençoar a casa e seus filhos, em um momento de profunda conexão espiritual. A programação também conta com a tradicional feijoada, reunindo comunidade, fé e confraternização.
Mais do que uma celebração, o marco reforça a importância histórica e cultural das religiões de matriz africana no Brasil. Originárias de diferentes povos africanos, essas tradições chegaram ao país durante o período da escravidão e, mesmo diante de séculos de perseguição e preconceito, resistiram e se mantiveram vivas por meio da oralidade, dos rituais e da força de seus praticantes.

Consideradas entre as mais antigas expressões religiosas da humanidade, essas crenças carregam valores ligados à natureza, à coletividade e à ancestralidade. Ainda hoje, no entanto, enfrentam intolerância religiosa — uma realidade que contrasta com a riqueza cultural e espiritual que representam.
Ao completar 40 anos, o Ilê Asé T’Ogum Bará Alaketú reafirma seu papel como espaço de resistência, acolhimento e preservação de saberes ancestrais.
As comemorações, abertas ao público, acontecem no próximo sábado, 25, às 15h, na Rua Olavo Bilac, 153, no bairro Jardim Bela Vista, Piraquara/PR.
Axé.









