No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, em 2 de abril, uma mãe de Barra Velha, no litoral norte de Santa Catarina, fez uma descoberta alarmante sobre a situação de seu filho, de apenas cinco anos.
Ela revelou nesta quinta-feira, 03, com exclusividade ao portal danimeller.com, que o menino, que estuda em uma escola municipal da cidade, estava sendo dopado de alguma forma, possivelmente com álcool ou medicamentos não receitados pelos médicos da criança. A denúncia foi feita após a mãe perceber um comportamento estranho e desconcertante no menino, que apresentava sinais de intoxicação ao voltar da escola.
Segundo a mãe, que pediu para ter seu nome e o do filho preservados para evitar represálias, o odor de álcool era tão forte que a criança transpirava e exalava o cheiro pelas narinas e pela boca. A mãe, preocupada com o comportamento do filho, que estava visivelmente agitado e com dificuldades para dormir, procurou uma médica. “Solicitei um exame para detectar a presença de álcool etílico, o que confirmou todas as suspeitas. O laudo do exame apontou um nível de álcool no organismo dele, de 15, valor que, segundo a médica, é três vezes mais alto do que o permitido para adultos em um bafômetro“.

Em estado de choque, a mãe, que só conseguiu trazer o caso a tona um dia após a descoberta, conta que ainda na quarta-feira, 02, registrou boletim de ocorrência na delegacia e, posteriormente, procurou o Ministério Público, que iniciou uma investigação sobre o caso.
“Procurei a escola e a Secretaria de Educação de Barra Velha e me reuni com os responsáveis. Eles me garantiram que vão solicitar as imagens das câmeras de segurança para apurar a situação. No entanto, não acredito que exista a possibilidade de encontrar provas, quem fez alguma coisa com certeza evitou as câmeras“, ressalta ela.
Ela explicou que seu filho foi diagnosticado com autismo de suporte 3, que é o grau mais alto do transtorno. “Hoje em dia, não se usa muito o termo ‘severo’ para definir o grau mais alto. Ele é muito agitado, não consegue ficar sentado, e tem uma comorbidade associada, que é o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)“, contou a mãe, descrevendo o comportamento da criança.
Ela ainda compartilhou que o filho só consegue ficar sentado para fazer as refeições e logo depois já se levanta, em constante movimento. “Ele fica andando, mas é uma criança muito carinhosa. Quando ele quer, ele vem até mim e pede carinho, mas não gosta muito de toque. Quando ele quer, ele vem, mas no geral é difícil, ele tem uma rotina bem difícil“, afirmou.
Além disso, a mãe relatou a escassez de profissionais para realizar as terapias necessárias para o desenvolvimento do filho, como as oferecidas pelo SUS. “Ele está em fila de espera para o terapeuta ocupacional e o fonoaudiólogo. No SUS, até tem terapeuta ocupacional, mas o tipo de terapia que ele precisa, que é a ocupacional, ajuda ele a se comportar, a se vestir, a entender os comandos. Ele está precisando muito de fono, porque ele é autista não verbal“, explicou a mãe, lamentando a demora no atendimento.
A mãe pontuou que o filho consegue soltar algumas palavras, mas ainda não consegue utilizá-las de forma funcional. “Ele repete palavras, mas ele não fala com propósito. Ele não consegue contar as coisas que aconteceram, só repete o que escuta“, disse. A mãe destacou a grande dificuldade que enfrentam devido à falta de recursos adequados, especialmente no que diz respeito às terapias essenciais para o desenvolvimento do filho.
“O que nós mães enfrentamos diariamente é o preconceito, a falta de empatia e a desinformação”,
Quando questionada sobre o que diria para aquelas pessoas que ainda possuem preconceito, falta de informação ou que simplesmente não têm paciência para lidar ou entender o autismo, a mãe não poupou palavras.
“O preconceito, a falta de empatia, isso a gente enfrenta diariamente. Às vezes, estamos em um estabelecimento, numa fila, e as pessoas não entendem que a criança tem prioridade, segundo a lei. É difícil, porque é como se as pessoas simplesmente não se importassem. Mas, eu digo, a internet hoje em dia facilita muito. Se você é leigo sobre o assunto, é só procurar se informar. Tem cursos gratuitos sobre autismo, alguns pagos, mas quem é profissional, quem está na área, tem que se especializar cada vez mais“, afirmou, com a voz embargada pela frustração.
Ela ainda ressaltou a importância da compreensão de que cada pessoa autista é única, e que a abordagem deve ser individualizada. “Não existe um autista igual ao outro. Cada autista é único e tem que ter um plano diferente para ser trabalhado. Por isso, estou insistindo para conseguir o PEI (Plano Educacional Individualizado) do meu filho, que é um direito garantido por lei, uma lei federal que obriga as escolas a disponibilizarem um plano de ação para cada aluno com deficiência“, explicou.
A mãe contou também sobre a dificuldade em garantir esse direito para seu filho na cidade de Barra Velha, onde, segundo ela, a prefeitura inicialmente alegou que não seria possível implementar o PEI. “Eles disseram que não tinham condições, estavam tentando se adequar, mas isso é totalmente errado, porque a lei é clara. A cidade de Barra Velha sempre tenta passar por cima das leis, mas eu não vou desistir dos meus direitos“, declarou com determinação.
Por fim, ela revelou que, após persistir, a prefeitura se comprometeu a criar o PEI para o filho dela, destacando a importância dessa conquista. “Esse ano, disseram que vão fazer o PEI. Em todas as cidades isso já acontece, menos em Barra Velha. Mas agora, depois de tanto insistir, finalmente vão cumprir a lei. Isso é um direito meu, não é favor. A lei deve ser cumprida“, concluiu, com a esperança de que sua luta seja um exemplo para outras famílias que enfrentam a mesma batalha.
O que é o PEI?
O Plano Educacional Individualizado (PEI) é uma ferramenta prevista pela Lei 13.146/2015, a Lei Brasileira de Inclusão, que assegura o direito à educação inclusiva para pessoas com deficiência. O PEI deve ser elaborado de forma colaborativa entre a escola, os responsáveis e profissionais da educação, com o objetivo de promover as melhores condições de aprendizagem para o aluno com deficiência. A lei determina que escolas públicas e privadas ofereçam esse tipo de plano, com adaptações pedagógicas específicas para atender às necessidades de cada estudante. Em situações como a da criança de Barra Velha, o PEI deveria ser uma prioridade para garantir que o aluno recebesse o apoio necessário de maneira adequada e legal.
Denúncia e luta por direitos
A mãe não deixou de destacar sua indignação com o ocorrido, alertando para o que considera uma falha no sistema de apoio educacional para crianças com autismo. “Eu não posso acusar ninguém ainda, pois está sob investigação, mas o que mais me preocupa é que, se isso foi feito com o meu filho, pode ser que aconteça com outra criança. Os profissionais da educação, que deveriam ser treinados para lidar com crianças com necessidades especiais, falharam no cuidado necessário“, declarou a mãe, que está firme em sua luta para que a verdade venha à tona e que os responsáveis sejam punidos.
Resposta da Prefeitura de Barra Velha sobre a denúncia:
A Secretaria de Educação de Barra Velha informou que recebeu a denúncia e está apurando os fatos para esclarecer a situação. Em relação ao Plano Educacional Individualizado (PEI), a Secretaria de Educação esclareceu que os planos estão sendo realizados e o planejamento está sendo aplicado em todas as salas. Para a elaboração do plano individualizado, os pais precisam responder ao protocolo de conduta, que inclui uma entrevista.








