A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em 19 de novembro de 2025, uma autorização excepcional para que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) conduza pesquisas científicas sobre o cultivo da planta Cannabis sativa. A permissão tem caráter estritamente acadêmico e experimental, com regras rigorosas de controle e sem qualquer possibilidade de comercialização dos resultados.
1. A decisão da Anvisa
- A Diretoria Colegiada da Anvisa concedeu uma autorização excepcional para a Embrapa desenvolver estudos sobre o cultivo da cannabis para fins científicos.
- Antes de iniciar as pesquisas, a Embrapa será inspecionada presencialmente pela Anvisa e precisará satisfazer uma série de requisitos para garantir segurança, rastreabilidade e controle do material vegetal. agência acompanhará todo o processo e poderá exigir ajustes conforme se desenvolvem os estudos.
- Importante: nenhum produto derivado das pesquisas poderá ser comercializado. A Embrapa também só poderá enviar para outras instituições parcerias material vegetal não apto para propagação (ou seja, sementes que não geram novas plantas) — e somente para instituições de pesquisa autorizadas.
2. Por que a Embrapa solicitou essa autorização
- A Embrapa justificou o pedido citando o crescimento do interesse mundial na cannabis, por seus potenciais usos econômicos, sociais, ambientais e medicinais.
- A empresa pretende gerar conhecimento próprio sobre a planta, reduzindo a dependência de insumos importados e fortalecendo a autonomia tecnológica do Brasil.
- O pedido da Embrapa foi também alinhado com financiamento recente: segundo a própria Embrapa, mais de R$ 13 milhões foram aprovados pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) para pesquisas com canabidiol.
3. As linhas de pesquisa autorizadas
A autorização da Anvisa prevê que a Embrapa atue em três frentes principais:
- Conservação e caracterização de germoplasma
- A Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia ficará responsável por formar um banco de germoplasma (material genético da planta), para preservar diferentes variedades de Cannabis sativa.
- Esse banco permitirá rastreabilidade, estudo de variabilidade genética e futura seleção de genótipos para usos específicos.
- Bases científicas e tecnológicas para cannabis medicinal
- A Embrapa Clima Temperado conduzirá pesquisas agronômicas com foco no potencial medicinal da planta: estudar como cultivar para maximizar certos canabinoides, avaliar extratos, entender a influência do ambiente no perfil químico, etc.
- A ideia é gerar dados robustos para apoiar políticas públicas, uso terapêutico e inovação no país.
- Pré-melhoramento de cânhamo para fibras e sementes
- A Embrapa Algodão (e possivelmente outras unidades) trabalhará no desenvolvimento de variedades de cânhamo (variedade de Cannabis sativa com baixo teor de THC) voltadas à indústria: fibras, sementes e outros subprodutos.
- Esse trabalho pode abrir caminho para aplicações na bioeconomia: construção, têxteis, alimentos, entre outros.
Além disso, segundo reportagem do O Povo, outras unidades da Embrapa poderão se envolver: por exemplo, a Embrapa Agroindústria Tropical, para pós-colheita e análise fitoquímica, formação de “extratoteca” (banco de moléculas) e avaliação de coprodutos.

4. Impacto para a saúde pública, agricultura e bioeconomia
- Autonomia tecnológica: o relator do processo na Anvisa, o diretor Thiago Lopes Cardoso Campos, afirmou que a autorização permite ao Brasil produzir conhecimento próprio e reduzir a dependência de insumos importados.
- Segurança sanitária: ao permitir pesquisas controladas, a Anvisa reforça seu compromisso com a ciência e a vigilância sanitária — a agência estará presente em todo o processo.
- Bioeconomia: o pré-melhoramento para cânhamo pode fomentar cadeias produtivas sustentáveis (fibras, sementes), contribuindo para a economia circular e para o uso industrial da planta.
- Políticas regulatórias: os resultados desses estudos podem subsidiar futuras regulamentações pela Anvisa — por exemplo, para uso medicinal, produção de insumos ou mesmo legalização de cadeias produtivas controladas.
5. Limitações e críticas
- Proibição de comercialização: a Embrapa não poderá comercializar nenhum produto derivado dos estudos autorizados. Isso limita, por enquanto, o impacto comercial direto.
- Restrição de propagação: apenas material vegetal não apto à propagação poderá ser enviado para outras instituições, o que limita a escala de multiplicação imediata.
- Controle rigoroso: a inspeção presencial e os requisitos exigidos pela Anvisa são altos, o que pode tornar os estudos mais complexos, caros ou lentos de implementar.
- Desafio regulatório maior: embora esse seja um passo importante para pesquisa, ele não resolve totalmente a falta de regulamentação mais ampla para cultivo comercial de cannabis medicinal no Brasil. Ainda há lacunas legais que precisam ser enfrentadas.
6. Contexto regulatório
- A Anvisa já discute há anos uma regulamentação para o cultivo controlado de Cannabis sativa para fins medicinais e científicos. Em 2019, foram abertas consultas públicas sobre requisitos técnicos para cultivo e registro de medicamentos à base da planta.
- A agência considera que esse tipo de regulação precisa garantir segurança, controle de acesso, rastreabilidade e evitar desvios da planta para uso ilícito.
- Em decisões anteriores, a Anvisa já havia tratado da autorização especial simplificada para instituições de pesquisa que queiram adquirir padrão de canabinoides, sementes ou material de cannabis para estudos.
- Há também votos recentes no repositório digital da Anvisa que mostram a cautela da agência: por exemplo, o Voto nº 2.055/2023 negou autorizações em certos casos por falta de requisitos ou risco sanitário.
7. Reações
- Para a Embrapa, a autorização é um marco: representa a chance de consolidar uma base científica nacional sobre cannabis e contribuir para a formulação de políticas públicas e cadeias produtivas reguladas.
- A Anvisa vê a autorização como um reforço de seu compromisso com a ciência: “é a ciência quem deve guiar o país”, declarou o diretor relator.
- Especialistas em políticas de drogas e saúde podem ver isso como um passo importante para avançar na bioeconomia da cannabis no Brasil, embora o caminho para a regulação comercial ainda dependa de novas normativas.








