Por trás das decisões legislativas em São João do Itaperiú, Norte de Santa Catarina, há um homem com mãos calejadas, rosto marcado pelo sol e uma trajetória inteiramente dedicada à terra. Dorival Duarte, 59 anos, é produtor rural há mais de duas décadas e atualmente cumpre seu terceiro mandato consecutivo como vereador.

Longe do estereótipo burocrático dos gabinetes, Dorival abriu as portas de sua propriedade para mostrar a realidade de quem dedica a vida a alimentar a população: uma rotina de desafios diários, incertezas econômicas e a constante vulnerabilidade perante os caprichos do clima.

Escritório a céu aberto e a ameaça invisível do tempo
“O nosso desafio aqui é sempre o clima. Nós temos um escritório a céu aberto”, sintetiza Dorival. A frase resume a volatilidade da vida no campo. Na bananicultura, um trabalho de meses pode ser dizimado em questão de segundos por um vendaval ou um temporal inesperado.
Diferente de culturas de ciclo curto, a banana exige paciência e presença constante. Trata-se de uma cultura perene. Do momento em que o pé é plantado até a colheita do primeiro cacho, decorrem de 12 a 14 meses. “Quando você corta o cacho, aquela planta-mãe morre, mas o ‘filho’ já está crescendo ao lado para dar continuidade ao ciclo”.
Na propriedade de Dorival, há bananais com mais de 30 anos mantidos vivos por esse cuidado ininterrupto, repassado de geração em geração.

As montanhas e o relevo acidentado de São João do Itaperiú impõem dificuldades adicionais ao manejo e à colheita. Ainda assim, a produção não para. Para proteger as frutas contra pragas, insetos e arranhões, os cachos são ensacados individualmente na planta.
O uso de sacos de cores diferentes, azul, amarelo, verde, funciona como um código cronológico: cada cor representa uma quinzena de ensacamento, permitindo que o trabalhador identifique no topo do morro exatamente qual fruto atingiu o ponto ideal de corte.

| Etapa do Cultivo | Especificação Técnica |
|---|---|
| Densidade de Plantio | 1.400 a 1.500 plantas por hectare |
| Tempo de Maturação | 12 a 14 meses por cacho |
| Principais Variedades | Bananas Caturra (Nanica) e Prata |
| Controle de Colheita | Sacos coloridos alternados a cada 15 dias |
A matemática do custo e o impacto na mesa do consumidor
Apesar da dedicação contínua, o produtor rural enfrenta uma conta que raramente fecha. Hoje, o custo de produção para manter a lavoura gira entre R$ 1,30 e R$ 1,40 por quilo. Em momentos de supersafra ou oscilação de mercado, a caixa de 20 kg chega a ser vendida na origem por R$ 10,00 ou R$ 15,00, valor que não cobre os investimentos em adubação, insumos e mão de obra.
“O produtor acaba trocando seis por meia dúzia ou se endividando. Se continuarmos vendendo abaixo do custo, muitos vão parar”, alerta Dorival. Atualmente, o setor se mobiliza junto às associações locais para pleitear um preço mínimo de R$ 1,50 por quilo na origem. O contraste é gritante quando comparado às prateleiras dos supermercados nas grandes cidades, onde o consumidor final paga valores substancialmente maiores.

Gerador de empregos e pilar familiar
A estrutura da propriedade de Dorival sustentou e moldou sua própria família. Com o trabalho na terra, ele garantiu a formação de uma das filhas, Elaine Duarte e da esposa Noeli Antunes Duarte, mantém estudando a filha caçula Emanuelle Duarte e o enteado Wesley Antunes de Oliveira. Além do legado de conhecimento que tem feito do filho mais velho, Eluir Duarte, seu braço direito na gestão do campo.
E não para por aí, a atividade agrícola sustenta diretamente outras 14 famílias na região. Parte da equipe atua na roça, enfrentando a lida diária nos morros, enquanto oito funcionários trabalham no galpão de beneficiamento, lavando, selecionando e embalando a fruta com rigor técnico.

O homem do agro por trás do político
Antes mesmo de São João do Itaperiú conquistar sua emancipação política de Barra Velha, em 29 de março de 1992, Dorival já trabalhava pelo desenvolvimento da comunidade de Santa Cruz, onde reside desde 1979. Para ele, a atuação política surge como uma extensão natural do compromisso com a sua terra.
- Trajetória: Residente no município há 47 anos, participou ativamente do movimento de emancipação em 1992.
- Atuação Pública: Cumpre o terceiro mandato consecutivo como vereador.
- Visão de Gestão: Defende que o envolvimento comunitário e a presença de produtores na política são fundamentais para garantir investimentos em infraestrutura rural e defender os interesses de quem produz.

“Acredito que a política deve ser vista com bons olhos e feita por pessoas sérias. Não dependemos da política para viver; estamos nela para fazer a diferença pelo nosso município e pela nossa comunidade.”
Na interseção entre a vida pública e a lavoura, Dorival Duarte personifica a resiliência do agricultor brasileiro: aquele que enfrenta intempéries climáticas e incertezas econômicas antes do amanhecer para garantir que o alimento chegue com qualidade às famílias de todo o país.









