Por Daniela Meller | Especial para danimeller.com
Luanda (Angola) – A capital angolana vive dias de terror. Entre os dias 28 e 30 de julho, ruas de Luanda foram tomadas por protestos após mais um aumento no preço dos transportes públicos informais. O povo, já esgotado pela inflação e pela fome, respondeu com manifestações que foram brutalmente reprimidas pelas forças de segurança do Estado.
Em entrevista exclusiva ao portal danimeller.com, o jurista e ativista João Mazita Bubi, 27 anos, recém-formado em Direito, descreveu o cenário como “uma guerra não declarada contra os pobres”. Segundo ele, dezenas de pessoas foram mortas — muitas delas baleadas pelas costas enquanto tentavam fugir.
“O que está a acontecer em Angola é desumano. Policiais estão a matar civis. A fome empurrou o povo para as ruas, e o governo respondeu com armas”, denunciou.

Aumento dos táxis foi o estopim
O aumento da tarifa dos táxis coletivos, que passou de 200 para 300 kwanzas em julho de 2025, foi o gatilho de uma revolta popular. O reajuste ocorreu após a elevação do preço do diesel (de 300 para 400 kwanzas/litro), como parte do plano de retirada dos subsídios aos combustíveis. Para a maior parte da população — que depende desse transporte — a alta foi insustentável.
Taxistas paralisaram suas atividades entre os dias 28 e 30 de julho. Sem transporte e com o custo de vida nas alturas, a população se manifestou em massa, em diversos pontos da capital e outras províncias.
Repressão em larga escala
O governo respondeu com uma operação de repressão militar sem precedentes. Diversas unidades das forças de segurança foram mobilizadas:
- Polícia de Intervenção Rápida (PIR) com efetivos fortemente armados e trajes antimotim;
- Cavalaria em ação em zonas críticas de Luanda, como Benfica, Zango, São Paulo e Gamek;
- Militares das Forças Armadas Angolanas (FAA), incluindo uso de carros blindados;
- Polícia Nacional, com agentes em viaturas táticas e fardamento de combate.
“Eles tomaram as ruas como se estivessem a enfrentar um exército. Mas eram apenas cidadãos com fome, protestando. Não se trata vandalismo com execuções sumárias”, disse Bubi.
Testemunhas relatam disparos à queima-roupa, invasões a bairros populares e perseguições a manifestantes desarmados. Vídeos enviados por moradores mostram civis sendo abatidos enquanto corriam, lojas saqueadas e gritos de desespero.
Números contestados e silêncio presidencial
O Ministro do Interior, Manuel Homem, declarou que 22 pessoas morreram, incluindo um agente policial. No entanto, João Bubi e outras fontes locais afirmam que os números ultrapassam 40 mortos, sendo mais de 30 apenas em Luanda. Províncias como Lunda Norte e Bié também registraram confrontos violentos.
Enquanto isso, o presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, estava fora do país, em visita oficial a Portugal. Retornou apenas no dia 29 de julho e, até o momento da publicação desta reportagem, não se pronunciou oficialmente sobre os acontecimentos.
“Um chefe de Estado que se cala diante da morte de seu povo não governa. Apenas ocupa o cargo”, afirmou o ativista.
Crise humanitária e colapso social
O cenário de pobreza extrema em Angola é agravado por inflação galopante, desemprego e denúncias recorrentes de corrupção. Famílias inteiras têm recorrido a lixões para encontrar comida. A venda de latas e plásticos recicláveis — recolhidos no lixo — tornou-se fonte de sustento para muitos.
“Hoje é normal ver pais e mães dentro do lixo. Antes, isso assustava. Agora, é cotidiano”, diz Bubi.
As universidades também foram afetadas: algumas elevaram as propinas acima do salário mínimo, gerando mais revolta entre os jovens. Em paralelo, investigações apontam desvios de até 37 milhões de dólares em verbas públicas no último mês, segundo o próprio ativista.
População entre o medo e o colapso
Apesar do anúncio do fim da greve nesta quarta-feira, a situação nas ruas ainda é instável. Há relatos de paralisações policiais em bairros periféricos devido ao elevado número de mortes. A tensão permanece alta, e há temores de que os protestos sejam retomados com ainda mais força.
“Se continuar assim, o país pode entrar num conflito sangrento. O povo já não tem nada a perder”, alerta Bubi.
Muitos angolanos cogitam deixar o país. João, por exemplo, sonha em buscar refúgio no Brasil.
“Queremos viver com dignidade. Queremos paz. Mas aqui, nossa vida vale menos que o silêncio de quem deveria nos proteger.”

Sobre Angola
Angola, país africano com cerca de 39 milhões de habitantes, é governado pelo partido MPLA desde a independência de Portugal, em 1975. A capital, Luanda, enfrenta sérios problemas de infraestrutura, desigualdade e custo de vida elevado. A economia gira em torno do petróleo, mas sofre com inflação (27% em 2025), dívida pública e escândalos de corrupção.
Apesar das promessas de reformas, o governo Lourenço tem sido criticado por sua resposta autoritária à insatisfação popular — e agora, por sua omissão diante da violência estatal.

As mortes em Angola não são apenas números: são rostos, vozes e famílias destroçadas por um sistema que deixou de servir seu povo. Para mais vídeos clique neste link.

Reportagem: Daniela Meller
Imagens e vídeos: João Mazita Bubi/Redes Sociais
Colaboração: Redação danimeller.com
Fontes: AP News, DW, Reuters, Al Jazeera, Human Rights Watch, Focus Economics, Banco Mundial








