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    Início » FIBROMIALGIA – Entre a dor e a informação: médico realiza trabalho voluntário em Balneário Camboriú
    Matéria Especial 11 Mins Read

    FIBROMIALGIA – Entre a dor e a informação: médico realiza trabalho voluntário em Balneário Camboriú

    Encontros na Casa do Idoso abordam fibromialgia, medicina integrativa e possibilidades do uso medicinal da cannabis
    Redação24 de setembro de 2026
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    Uma parte importante de sua trajetória aconteceu fora do país. O médico morou durante oito anos na Tailândia Foto: Daniela Meller
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    BALNEÁRIO CAMBORIÚ — Informação, escuta e orientação têm sido os principais instrumentos utilizados pelo médico clínico geral Marco Elias, conhecido nas redes sociais como @marcohelias, em um trabalho voluntário desenvolvido junto a pessoas idosas em Balneário Camboriú.

    Nessa matéria especial, a equipe do Portal danimeller.com acompanhou um dos encontros realizados na Secretaria da Pessoa Idosa, onde o médico conversa com participantes sobre fibromialgia, dor crônica, sono, aspectos emocionais e diferentes possibilidades terapêuticas dentro de uma abordagem integrativa.

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    Um dos temas que mais despertam dúvidas durante as atividades é a cannabis medicinal, assunto que passou a fazer parte da trajetória profissional de Marco Elias e que também o aproximou da Santa Cannabis, associação de pacientes sediada em Florianópolis.

    O objetivo, segundo o médico, é principalmente levar informação a pessoas que muitas vezes chegam ao atendimento com dúvidas sobre a própria doença e sobre as alternativas existentes.

    Ao longo da carreira, Dr Marco trabalhou em diferentes regiões do Brasil, incluindo Campinas, Tocantins, Curitiba e Florianópolis Foto: Daniela Meller

    Uma trajetória que passou por diferentes lugares

    Natural de Ribeirão Preto (SP), Marco Elias formou-se em Medicina em 1988, pela UniRio, no Rio de Janeiro. Ao longo da carreira, trabalhou em diferentes regiões do Brasil, incluindo Campinas, Tocantins, Curitiba e Florianópolis.

    Uma parte importante de sua trajetória aconteceu fora do país. O médico morou durante oito anos na Tailândia, onde, segundo seu relato, teve contato com outras formas de terapias relacionadas ao budismo e passou a estudar técnicas que posteriormente incorporou à sua visão de medicina integrativa.

    Há aproximadamente um ano em Balneário Camboriú, ele começou a desenvolver atividades voltadas à população local. Inicialmente, o trabalho ocorreu junto à área de assistência e bem-estar social. Posteriormente, os encontros passaram para a Secretaria da Pessoa Idosa, onde, segundo Marco, existe maior espaço e facilidade para reunir os participantes.

    Doutor Marco Elias quando morava na Tailândia Foto: Arquivo Pessoal

    A falta de informação é uma das principais queixas

    Durante a palestra acompanhada pelo Portal, o médico chamou atenção para uma dificuldade que considera recorrente entre pessoas diagnosticadas com fibromialgia: a falta de informação adequada.

    Dúvidas sobre diagnóstico, tratamento, medicamentos, acompanhamento médico e acesso a alternativas terapêuticas aparecem com frequência. “Muita gente ouve falar, mas não tem a informação correta”, relatou.

    Para Marco, o paciente precisa compreender que o acompanhamento deve ser individualizado e que a fibromialgia não deve ser observada somente pela presença da dor.

    A cannabis medicinal é um produto obtido pela extração dos canabinoides, substâncias presentes na Cannabis sativa • Tinnakorn Jorruang/GettyImages

    Fibromialgia envolve mais do que dor

    A fibromialgia é uma condição caracterizada principalmente por dor musculoesquelética generalizada, mas pode estar associada também a fadiga, alterações do sono, dificuldades de concentração e outros sintomas.

    Durante o encontro, Marco explicou aos participantes que fatores como qualidade do sono, estado emocional, atividade física e percepção da dor precisam ser considerados conjuntamente.

    O médico defende uma abordagem que não se limite à prescrição de medicamentos. “Não adianta só fazer uma abordagem da doença, só dando um remédio químico. A gente tem que fazer uma abordagem que faça uma modulação da dor, que faça um equilíbrio emocional, que melhore o sono e a recuperação muscular e que também faça uma redução da inflamação”, explicou durante a atividade.

    A proposta apresentada por ele é integrar diferentes estratégias de cuidado, sempre considerando as características individuais do paciente.

    Imagem: Reprodução site: https://institutchiaribcn.com/pt/fibromialgia-pt/

    Cannabis medicinal entra na discussão

    Marco Elias conta que começou a se aprofundar no estudo da cannabis medicinal no final do ano passado, após chegar a Balneário Camboriú. Ele realizou uma especialização na área e passou a atuar em parceria com a Santa Cannabis, associação sem fins lucrativos voltada a pacientes que buscam acesso a tratamentos à base de cannabis medicinal.

    Na entrevista concedida ao Portal danimeller.com, o médico explicou que a associação também possui uma atuação social e que o acompanhamento médico é necessário para avaliar a indicação, a resposta ao tratamento e eventuais ajustes.

    Segundo Marco, pacientes procuram esse tipo de tratamento principalmente em razão de dores crônicas, ansiedade, insônia e outras condições. Ele também mencionou epilepsia, TDAH, autismo e doença de Alzheimer.

    É importante, entretanto, diferenciar possibilidade terapêutica de comprovação científica. A evidência sobre cannabis medicinal varia de acordo com a doença e com o produto utilizado. Há indicações em que os estudos são mais consistentes, como algumas formas específicas de epilepsia refratária, enquanto outras condições continuam sendo objeto de pesquisa e apresentam resultados mais heterogêneos.

    Por isso, a utilização de canabinoides não deve ser interpretada como tratamento universal e precisa considerar avaliação e acompanhamento profissional. “Cada pessoa tem uma necessidade”

    Ao falar sobre sua experiência clínica, Marco destacou justamente a necessidade de individualizar a conduta. “Cada pessoa tem uma necessidade, cada doença tem uma necessidade e a gente tem que ver o quanto a pessoa se adapta à medicação”, afirmou.

    O médico também relatou que realiza acompanhamento dos pacientes para observar a evolução dos sintomas e avaliar a necessidade de ajustes na conduta. Ele citou possíveis efeitos adversos, como náuseas e alterações gastrointestinais, reforçando que a resposta ao tratamento pode variar.

    Associação Santa Cannabis Foto: Reprodução Internet

    A história que deu origem à Santa Cannabis

    O trabalho de Marco com a cannabis medicinal também está relacionado à trajetória de Pedro Sabaciauskis, fundador da Santa Cannabis. Em entrevista ao Portal danimeller.com, Pedro contou que a associação surgiu a partir de uma experiência familiar.

    Em 2019, sua avó, Dona Edna, então com 83 anos, convivia havia anos com Parkinson. Segundo Pedro, a família descobriu naquele período que a cannabis poderia ser uma possibilidade terapêutica e começou a pesquisar formas de acesso.

    A primeira dificuldade, segundo ele, foi justamente o custo. Pedro relatou que, naquele período, a importação de produtos de cannabis envolvia autorização e a necessidade de adquirir uma quantidade mínima elevada, fazendo com que o tratamento tivesse um custo que, segundo seus cálculos, ultrapassava R$ 40 mil.

    A família então conheceu uma associação do Ceará que fornecia óleo artesanal por um custo significativamente menor. Pedro conta que, após a utilização do produto por sua avó, a família percebeu uma mudança significativa nos movimentos.

    O relato pessoal acabou dando origem a uma iniciativa maior. “Ficamos impactados”, contou. A partir da experiência, Pedro e outras quatro pessoas se reuniram em Florianópolis e decidiram criar a Santa Cannabis.

    Dr Marco atende dezenas de pacientes voluntariamente Foto: Daniela Meller

    Da necessidade familiar a uma associação de pacientes

    Segundo Pedro, poucos meses depois da fundação, a associação já reunia cerca de 80 pacientes. Diante das dificuldades legais para desenvolver as atividades pretendidas, a entidade ingressou com uma ação judicial.

    Pedro afirma que, após aproximadamente três anos e meio de processo, a associação obteve uma decisão judicial que, segundo seu relato, autorizou atividades relacionadas à importação de sementes, cultivo, extração, transporte e pesquisa, dentro das condições estabelecidas judicialmente.

    A trajetória fez com que a Santa Cannabis passasse a se apresentar como uma referência nacional no segmento. A entidade informa atualmente trabalhar com produtos derivados da cannabis, incluindo óleos e produtos de uso tópico, além de manter atividades relacionadas a pesquisa e educação.

    Produção e acesso

    Segundo informações institucionais apresentadas pela Santa Cannabis, a associação possui estrutura relacionada ao cultivo e produção em Itapoá, no litoral de Santa Catarina. A entidade afirma trabalhar para ampliar o acesso aos produtos medicinais e informa realizar processo de acolhimento e cadastro dos pacientes.

    A associação também declara que, caso o paciente ainda não tenha receita médica, pode orientar sobre a busca por profissional habilitado para avaliação.

    Agente de saúde e atualmente embaixadora da Santa Cannabis, Josiane convive com epilepsia desde os nove anos de idade e recebeu diagnóstico de fibromialgia aos 28 Foto: Arquivo Pessoal

    Josiane: de paciente a embaixadora

    Outra história ligada à Santa Cannabis é a de Josiane Machado, no instagran @josimachado.santacannabis moradora de Ituporanga, no Alto Vale do Itajaí. Agente de saúde e atualmente embaixadora da Santa Cannabis, Josiane convive com epilepsia desde os nove anos de idade e recebeu diagnóstico de fibromialgia aos 28.

    Em entrevista ao Portal, ela relatou que enfrentou períodos de dores intensas e limitações no cotidiano. Segundo Josiane, há cerca de dois anos, diante da dificuldade de controle das convulsões com os tratamentos que utilizava, um neurologista indicou a cannabis medicinal como uma possibilidade terapêutica.

    Inicialmente, ela precisou recorrer à importação, que, segundo seu relato, representava um custo elevado. Posteriormente, conheceu a Santa Cannabis e passou a atuar como embaixadora da associação.

    Josiane também participa de iniciativas relacionadas às pessoas com fibromialgia na região de Ituporanga e afirma buscar levar informação para outras pessoas que enfrentam condições semelhantes.

    Sua história é apresentada aqui como relato pessoal de experiência com o tratamento, e não como comprovação de eficácia para todos os pacientes.

    Deputado Mauricio Peixer Foto: Vicente Schmitt / Agência AL

    Fibromialgia também entrou na agenda das políticas públicas

    Enquanto profissionais, pacientes e associações discutem tratamento e qualidade de vida, a fibromialgia também passou a ocupar espaço nas políticas públicas de Santa Catarina.

    A Lei Estadual nº 18.928, de 10 de junho de 2024, alterou a Lei nº 17.292/2017 e incluiu a fibromialgia entre as condições previstas na legislação estadual relacionada às pessoas com deficiência, além de prever a possibilidade de criação de uma Carteira Estadual de Identificação da Pessoa com Fibromialgia.

    Posteriormente, a legislação foi objeto de questionamento judicial

    Segundo a decisão informada à reportagem, em 20 de maio de 2026, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina julgou a ADI nº 5033647-81.2025.8.24.0000 e estabeleceu interpretação conforme à Constituição para os dispositivos questionados.

    Na prática, a decisão afastou a interpretação de que o simples diagnóstico de fibromialgia produziria automaticamente o reconhecimento da condição de pessoa com deficiência ou o direito automático à emissão da carteira.

    A avaliação deve observar o modelo biopsicossocial, considerando as características e limitações apresentadas individualmente.

    Estado trabalha em novo laudo biopsicossocial

    O tema também vem sendo acompanhado pelo deputado estadual Maurício Peixer, autor do projeto que resultou na Lei nº 18.928/2024.

    Em entrevista ao Portal danimeller.com, Peixer afirmou que vem realizando seminários regionais, incentivando a criação de associações de pessoas com fibromialgia e discutindo políticas públicas relacionadas à dor crônica.

    Segundo o parlamentar, já foram realizadas ações para estimular a organização de associações em diferentes regiões de Santa Catarina. Outro ponto destacado por ele é a discussão sobre saúde mental e a criação de grupos de apoio para pessoas que convivem com a doença.

    Peixer também citou a necessidade de ampliar o debate sobre tratamentos e sobre o acesso a medicamentos, incluindo os derivados de cannabis.

    Diogo Dermachi – Secretário de Saúde de Santa Catarina Foto: Roberto Zacarias/ Secom

    Diogo Demarchi confirma avanço no laudo estadual

    Em vídeo divulgado em 16 de setembro, o secretário de Estado da Saúde de Santa Catarina, Diogo Demarchi, confirmou o avanço na elaboração do novo instrumento de avaliação biopsicossocial.

    Segundo Demarchi, foi concluída uma primeira versão do laudo, elaborada em parceria com as secretarias municipais de Saúde, com participação da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE) e do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde.

    «“Finalizamos a elaboração do novo laudo de avaliação biopsicossocial, em parceria com as secretarias municipais de saúde, essa primeira versão, para atender uma demanda primeiro judicial que ocorreu, mas também para que a gente possa orientar da maneira adequada todos os pacientes que necessitarem desse tipo de avaliação”, afirmou o secretário.»

    Demarchi também declarou que o documento deverá ser aperfeiçoado ao longo do processo. Segundo ele, o objetivo é garantir que pacientes com fibromialgia tenham acesso aos direitos previstos e ao atendimento de saúde necessário.

    O secretário ainda anunciou a intenção de ampliar os ambulatórios da dor em diferentes regiões do Estado, buscando oferecer atendimento especializado à população que convive com dor crônica.

    Informação como parte do cuidado

    O encontro acompanhado pelo Portal danimeller.com mostra que a discussão sobre fibromialgia vai muito além da própria doença. Existe uma busca por informação, por diagnóstico adequado, por alternativas terapêuticas, por atendimento especializado e, principalmente, por qualidade de vida.

    O trabalho voluntário desenvolvido pelo médico Marco Elias na Secretaria da Pessoa Idosa coloca essas questões em discussão de maneira coletiva, enquanto histórias como a de Josiane mostram o impacto que a busca por alternativas pode representar na vida de quem convive há anos com doenças crônicas.

    Ao mesmo tempo, a atuação de associações como a Santa Cannabis amplia o debate sobre acesso à cannabis medicinal, enquanto o poder público discute protocolos, avaliação biopsicossocial e expansão da assistência especializada.

    Entre experiências pessoais, evidências científicas, decisões judiciais e políticas públicas, uma questão permanece no centro de todas essas discussões: quem convive diariamente com a dor precisa, antes de tudo, ter acesso à informação correta para poder discutir seu tratamento com profissionais de saúde e conhecer seus direitos.

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