O dia 02 de fevereiro data em que se comemora o aniversário à divindade ‘Iemanjá’, foi marcado por procissão, oferendas, muita emoção e um desabado pedindo não a ‘intolerância religiosa’, ainda muito presente em todo o Brasil. E em Barra Velha, no litoral Norte Catarinense, onde a 1ª Festa em Homenagem à Mãe Iemanjá foi realizada, não foi diferente. Mesmo antes do evento acontecer os organizadores enfrentaram uma série de dificuldades para fazer tudo dar certo, dificuldades que renderam até uma denúncia no Ministério Público local (MP).
Segundo doutora Carini Bittencourt, presidente da Associação e idealizadora do evento, ela e outros líderes religiosos da região, responsáveis pela Festa, dentre as dificuldades enfrentadas, tiveram como primeiro impasse a ‘ordem velada’, de que o grupo não poderia se reunir em concentração, em frente à igreja católica, antes da saída da procissão, para não causar ‘mal-estar’ aos fiéis e aos coordenadores da paróquia.

O evento organizado e realizado pela Associação Beneficente Ilê Asé Adague Esú Ojuolona de Barra Velha, reuniu em procissão dezenas de pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos, que saíram de frente à Paróquia Divino Espírito Santo, na rua Bernardo Aguiar, no Centro da Cidade, até o monumento da Iemanjá, na Orla do Costão, na manhã desta sexta-feira, 02. As comemorações ocorrem até o domingo, 04, na praia Central próximo à praça dos Pescadores.
“Me pergunto e faço o mesmo questionamento a todos os líderes religiosos de qualquer outra religião que seja: qual o mal que estamos fazendo ao outro se buscamos o mesmo: paz, união, fé e principalmente respeito à crença. E onde está escrito que a nossa religião está errada e a que a do outro está certa? Não estamos aqui para julgar em que você acredita ou em quem. Nossa intenção é apenas é comemorar o aniversário da Nossa Mãe Iemanjá, que para os católicos por exemplo, é o mesmo que a Nossa Senhora dos Navegantes”.
Mas, segundo Carini, contornada a situação os presentes viveram horas de muita emoção e entrega. A procissão seguiu da rua Bernardo Aguiar pela avenida Paraná até a Beira Mar, dando fim a caminhada ao chegar no monumento à divindade, no Costão, onde as oferendas foram entregues, assim como foi feita a soltura de um casal de pombos representando a paz e a distribuição de bolo e frutas.
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Carini é doutora em Direitos Humanos e Igualdade Racial, Juíza de Paz, Capelã e Filantrópica há quase 30 anos. “Assim como qualquer outra religião, as de origem africanas também cultuam suas divindades/deuses. Barra Velha é uma cidade litorânea com muitos pescadores. Por isso decidimos prestar a homenagem a uma das figuras mais importantes para a nossa religião, religião essa que também deve ser respeitada”.
Durante as homenagens foram distribuídas fatias de tortas, frutas e refrigerantes ao público presente. “Para nós esse é um dia muito abençoado, pois ela é a Rainha dos nossos pescadores, homens bravos e destemidos que enfrentam mares revoltos para trazer a nós o ‘peixe de casa dia’. As frutas e as tortas são significado de fartura. E fartura é o que o nosso povo umbandista e africanista tem oferecido ao longo dos séculos. Esse é o verdadeiro sentido da fé: compartilhar fartura”, pontua Carini.

Ela explica ainda, que o evento tem por objetivo trazer a tona ‘a ancestralidade, o respeito e a igualdade racial para a sociedade num todo’. “O legado que eles nos deixaram se resume em amor, respeito pela cor, credo e raça, declarando paz”.
Atendimento ao Público: Durante toda a tarde também foram realizados diversos atendimentos como: Mesa de Búzios, Mesa de Tarô, Defumação, Sacudimento com Ervas e Água de Cheiro, Workshop Teologia da Umbanda, Workshop Magia Divina, Workshop de Tambor e Curimba, Tenda de Massagem e Terapia com Reiki. Os atendimentos seguem no sábado e domingo, 03 e 04 respectivamente.



LÍDERES – Entre os líderes religiosos responsáveis pela organização estão os sacerdotes: Danielle Vanzuita do Terreiro de Umbanda Sete Estrelas da Guia (TUSEG), Jonas do Terreiro Tenda Espírita Nosso Senhor do Bonfim e Santa Sara de Kali (Umbanda, Catimbó e Mesa Branca) e Zetti Oliveira, do Terreiro Tenda de Ogun Iansã, do Rio do Sul.
Além deles a Mãe Terezinha do Nascimento de Oxum e Pai Segundo Naiton, do Terreiro Tenda de Umbanda Naruê e Pai Benedito (Umbanda e Quimbanda Omolocó), o Pai de Santo Alexandre do Odé de Curitiba, e as terapeutas holísticas, Maiara Gretter do Espaço Terapêutico Satori e Rosane Welter do Miguel Arcanjo Terapias, também fazem parte da organização e a participação da Maga Semírames de Azevedo do Colégio e Magia Divina e Evolução.

A Prefeitura de Barra Velha cedeu as tendas e as cadeiras, e dois empresários locais a exemplo da Frutaria Zanotti Frutas e Verduras e Panificadora Larissa, ambas no bairro Itajuba, cedera as frutas e tortas.
Iemanjá: quem é, história e significado (Umbanda e Candomblé)
Iemanjá é um orixá (divindade africana) feminino das religiões Candomblé e Ubanda. O seu nome tem origem nos termos do idioma Iorubá (língua nígero-congolesa) “Yèyé omo ejá”, que significam “mãe cujos filhos são como peixes”. É considerada a mãe de todos os adultos e a mãe dos orixás.
Iemanjá, na verdade, é a divindade do rio que deságua no mar. Ela é filha de Olokun, o orixá rei dos oceanos. O rio que representa Iemanjá e sua história é o Rio Ogun, localizado no estado de Oxum, na Nigéria.

Iemanjá é a padroeira dos pescadores. Para as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, é ela quem decide o destino de todos aqueles que entram no mar. Também é considerada a “Afrodite brasileira”, a deusa do amor a quem recorrem os apaixonados em suas demandas amorosas.

No Brasil, a deusa Iemanjá recebe diferentes nomes, dentre eles: Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Rainha do Mar, Sereia do Mar, etc.
Festas e rituais para Iemanjá
No dia 2 de fevereiro é comemorado o dia de Iemanjá. Em Salvador, capital do Estado da Bahia, acontece a maior festa popular dedicada a Iemanjá.

Milhares de pessoas trajadas de branco fazem uma procissão até ao templo de Iemanjá, localizado na praia do Rio Vermelho, onde deixam os presentes que vão encher os barcos que os levam para o mar.
No Rio de Janeiro, as festas em honra de Iemanjá estão relacionadas com a passagem de ano. Nos candomblés fiéis às origens africanas, o culto é prestado em locais fechados. Nos mais atuais, o culto é ao ar livre, prestado no mar e nas lagoas, sendo Iemanjá muitas vezes representada como sereia.

Os devotos levam para o mar vários presentes. Os que não afundam ou que são devolvidos à praia são tidos como rejeitados pela deusa.
Dentre as diversas oferendas para a bela e vaidosa deusa, encontram-se flores, bijuterias, vidros de perfumes, sabonetes, espelhos e comidas. O ritual se repete em outras praias do Brasil.
As celebrações em homenagem a Iemanjá também acontecem em 15 de agosto, 8 de dezembro e 31 de dezembro.

História de Iemanjá
A lenda conta que Iemanjá, filha de Olokun, o soberano dos mares, recebeu uma poção do pai para que a ajudasse a fugir de possíveis perigos. Após um tempo, Iemanjá se casa com Olofin-Oduduá, com quem teve dez filhos, que posteriormente se tornaram orixás.
Por amamentar todos os seus filhos, Iemanjá ficou com seios enormes. Ela se sentia envergonhada, principalmente após o seu marido caçoar dela por este motivo. Irritada e triste, Iemanjá resolveu largar o marido e ir atrás da felicidade.

Nesta jornada, apaixonou-se pelo rei Okerê. Para aceitar se casar com ele, Iemanjá pediu para que Okerê jamais caçoasse de seus seios enormes. Porém, após ficar bêbado, o rei começou a zombar dos seus seios, e Iemanjá fugiu.
O rei tentou persegui-la para se desculpar, mas Iemanjá usou a poção que seu pai lhe deu para escapar do marido. A poção a transformou em um rio, que desaguava no mar.

Com medo de perder a esposa, Okerê se transformou numa montanha para impedir que o rio alcançasse o mar, e Iemanjá pudesse voltar para ele.
Porém, Iemanjá pediu ajuda ao filho Xangô, que com um raio, partiu a montanha ao meio, permitindo que o rio seguisse o seu caminho. Assim, Iemanjá encontrou-se com o oceano e se tornou a rainha do mar.

Iemanjá no sincretismo religioso
Com o sincretismo religioso, Iemanjá corresponde no catolicismo, à Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Piedade e à Virgem Maria.
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