A celebração do Mês da Mulher em Barra Velha, no Litoral Norte catarinense, reuniu cerca de 500 participantes na tarde desta quarta-feira (18), em um evento marcado por homenagens e reconhecimento. Entre as mais de 60 mulheres destacadas por suas contribuições à cidade, três nomes carregam um simbolismo que vai além da trajetória pessoal: são as únicas mulheres eleitas vereadoras na história do município.
Marlene Costa Reinert, Oleias dos Prazeres Nogaroli e Márcia Maria Aguiar não apenas ocuparam cadeiras no Legislativo, elas abriram caminhos. Foram pioneiras em um espaço historicamente dominado por homens. No entanto, o que poderia ter sido o início de uma transformação política se tornou um capítulo isolado na história de Barra Velha.
Desde a primeira legislatura, entre 1963 e 1966, até 2026, apenas essas três mulheres foram eleitas pelo voto popular. Márcia Maria Aguiar, inclusive, alcançou um feito ainda mais raro: foi a única mulher a presidir a Câmara de Vereadores, no segundo mandato. Ela legislou entre 2001 e 2008.
Apesar disso, o cenário atual evidencia um retrocesso. A Câmara Municipal, que hoje conta com 11 vereadores, é composta exclusivamente por homens. Nenhuma mulher foi eleita na última legislatura.

O contraste é evidente — e inquietante.
Enquanto o evento celebra a força feminina em diversas áreas da sociedade, a política local segue sem representatividade feminina efetiva. Em décadas recentes, outras mulheres chegaram a assumir cadeiras no Legislativo, mas apenas como suplentes, sem terem sido eleitas diretamente pelo povo.
Durante o evento, o portal danimeller.com ouviu duas dessas protagonistas da história política local.

Aos 81 anos, Marlene Costa Reinert, a primeira vereadora eleita de Barra Velha, trouxe uma visão direta sobre o tema. Para ela, ainda existe uma barreira interna entre as próprias mulheres.
“Eu acho que a mulher não está preparada ainda para esse estágio público”, afirmou. Ao ser questionada sobre o tempo decorrido desde sua eleição, mais de quatro décadas, ela reconhece que houve tempo para mudanças, mas acredita que o medo ainda pesa. “Talvez seja medo. Porque, para ser política, tem que ter coragem. Tem que abdicar de muita coisa.”
Marlene também aponta para a necessidade de maior iniciativa. “A mulher tem que correr mais atrás, ser mais liberta, buscar a independência.”
Já Oleias dos Prazeres Nogaroli, que atuou como vereadora nos anos 2000 e também teve forte atuação social como primeira-dama e secretária de Assistência Social, traz uma análise diferente e mais crítica ao contexto cultural.
“Com certeza precisamos de mulheres na Câmara. A sensibilidade da mulher é necessária no Legislativo”, destacou. Segundo ela, a presença feminina contribui para uma visão mais próxima das famílias e das demandas sociais.
Oleias acredita que o problema vai além da decisão individual das mulheres. “Eu acredito que o machismo ainda impera”, afirmou, levantando também um questionamento sobre a cultura política local, historicamente marcada por lideranças tradicionais.
Para ela, o papel do eleitor é fundamental nesse cenário. “Sempre foi necessário que as pessoas votassem nas mulheres. Elas têm esse direito e essa capacidade de representar o povo.”
A discussão ganha ainda mais relevância quando se observa o contexto nacional. Há 94 anos, em 1932, as mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil, após décadas de mobilização. Desde então, a presença feminina na política tem avançado, ainda que lentamente, em diversas regiões do país.
Mas Barra Velha parece não acompanhar esse movimento.
O fato de que apenas três mulheres tenham sido eleitas em mais de 60 anos de história política levanta uma reflexão inevitável: o pioneirismo dessas lideranças não teve continuidade.
O que aconteceu?
Faltam candidatas? Falta apoio? Ou falta ao eleitor dar um voto de confiança e mudar o cenário político da cidade?
Enquanto essas respostas não chegam, o município segue com um Legislativo 100% masculino, um retrato que contrasta com a realidade de tantas mulheres que, diariamente, constroem a cidade em diferentes áreas.
As homenagens desta quarta-feira celebraram histórias de força, dedicação e protagonismo. Mas também deixaram um alerta silencioso: o espaço político, que um dia começou a ser ocupado por mulheres, hoje voltou a ser exclusivo dos homens.
E a pergunta permanece:
Até quando?









