Um paraíso dividido
A Ilha de Marajó, no estado do Pará, é o maior arquipélago flúvio-marinho do mundo, com cerca de 40 mil km². Banhada pelas águas do rio Amazonas, do rio Pará e pelo Oceano Atlântico, a ilha abriga paisagens impressionantes, praias de água doce, manguezais e uma fauna única — o cenário perfeito para o ecoturismo. Porém, para além das belezas naturais e das promessas de aventura, a região carrega cicatrizes profundas de desigualdade e exclusão social.
Com uma população estimada em mais de 630 mil habitantes, distribuída em 17 municípios, a Ilha de Marajó convive com índices alarmantes de pobreza. Em muitos locais, as escolas não têm água potável, banheiros ou saneamento básico. Crianças caminham quilômetros por dia para estudar — quando conseguem.

Enquanto isso, o turismo cresce. Em 2024, o Pará recebeu mais de 32 mil turistas estrangeiros e quase 1 milhão de visitantes no total, gerando mais de R$ 750 milhões para a economia local. Marajó participa dessa movimentação, especialmente nos municípios de Soure e Salvaterra, que concentram pousadas, restaurantes e agências de turismo voltadas ao público internacional.

A outra margem da ilha
Relatos de moradores e visitantes apontam uma realidade sombria. Em entrevista ao portal danimeller.com, a jovem Gabriela Meller Fonseca, que fez um tour saindo de Manaus (AM), passando pelo Pará de barco, disse ter se chocado com a quantidade de crianças que se aproximavam de embarcações em pequenas canoas — conhecidas como bateras — pedindo roupas, sapatos e alimentos jogados por turistas.
“Elas sobem em pneus como boias improvisadas, enfrentando correntezas fortes, apenas para pegar o que os turistas jogam do barco. É perigoso. Uma criança quase caiu na minha frente”, conta Gabriela, que depois seguiu viagem para Goiás e Santa Catarina.
A cena, que já foi normalizada por muitos como “cultura local” — onde ribeirinhos trocam cacau, frutas e pequenos peixes por objetos dos turistas — escancara um modelo de turismo exploratório e desigual. Gabriela fez um apelo: que o governo federal, autoridades paraenses e ONGs internacionais “voltem os olhos para Marajó”.
Exploração infantil e denúncias graves
Nos bastidores do turismo, denúncias ainda mais sérias circulam. Organizações e parlamentares da Comissão de Direitos Humanos do Senado estiveram em Marajó em 2025 para investigar desaparecimento de crianças, tráfico de pessoas e supostos casos de abuso sexual envolvendo estrangeiros.
A Polícia Civil do Pará realizou recentemente a “Operação Sentinela Marajó”, focada em crimes contra mulheres e menores. Já o Ministério Público Federal reconheceu que há investigações abertas, mas declarou que, até o momento, não há provas conclusivas sobre algumas alegações que circularam nas redes sociais, como a “venda direta de crianças por pais a turistas”.
Mesmo assim, o cenário é de alerta. Casos como o desaparecimento da menina Elisa Rodrigues, de 2 anos, em um dos municípios do arquipélago, motivaram intensificação de diligências e pressão da sociedade civil por respostas.

Desigualdade estrutural
O abismo social entre turistas e moradores é evidente. Quase 15 mil alunos frequentam escolas sem acesso a água potável ou banheiros, segundo levantamento da ONG Habitat para a Humanidade Brasil. A falta de saneamento básico, acesso à saúde e estrutura mínima de segurança agrava ainda mais a vulnerabilidade das comunidades.
A principal fonte de renda dos ribeirinhos continua sendo a pesca artesanal, a pecuária de búfalos, o extrativismo e o artesanato, embora boa parte da população dependa também de programas de transferência de renda. Muitos jovens deixam os estudos para trabalhar desde cedo, contribuindo com o sustento da família.
Como visitar Marajó — e por que olhar além das paisagens
Para quem parte do centro do Brasil, como Brasília, a viagem até Marajó exige múltiplas etapas:
- Avião até Belém (PA);
- De lá, barco ou balsa até Soure ou Salvaterra;
- Algumas regiões requerem horas adicionais de barco ou lancha.
As praias são de água doce, tranquilas, com paisagens de igarapés, trilhas ecológicas e passeios de observação de fauna. A experiência pode ser marcante — desde que feita com respeito à cultura local e consciência social.
Hospedar-se na região pode ser acessível em termos financeiros, mas a estrutura é simples e as limitações de transporte e serviços devem ser consideradas por quem pretende visitar. Mais do que tirar férias, quem vai a Marajó precisa entender que está entrando em um território que é, ao mesmo tempo, símbolo de beleza natural e de uma crise humanitária silenciosa.
Intervenções e promessas
O governo federal enviou equipes extras de saúde e iniciou planos de investimento em programas sociais e educação para a região, com apoio do Banco Mundial. Mas ONGs e lideranças locais denunciam que ainda é pouco diante do abandono histórico.
Enquanto isso, a Ilha de Marajó continua encantando os olhos dos turistas e permanecendo invisível aos olhos do poder público — pelo menos, aos olhos que deveriam ver mais que praias.


📌 Reportagem com base em dados do IBGE, Ministério da Saúde, Polícia Civil do Pará, Comissão de Direitos Humanos do Senado








