A triste peregrinação em busca de justiça por ‘Sofia’, a criança de Barra Velha, no litoral Norte de Santa Catarina, que acabou morrendo após complicações da dengue, teve mais um passo importante com o anúncio, na noite dessa terça-feira, 02, da exoneração do secretário de saúde Rogério Pinheiro.
Sofia Emanueli Ribeiro Pereira, de apenas quatro anos de idade, morreu no último domingo, 31, vítima de dengue hemorrágica e a família denunciou possível negligência médica. Daí em diante o caso ganhou repercussão nacional, amparo do Ministério Público, investigações da Polícia Civil, sindicância pela Prefeitura local e a exigência, por parte da família, da demissão do secretário.

O anúncio do desligamento do gestor da pasta foi feito pelo prefeito Daniel Cunha, após quatro horas de manifestação. Centenas de manifestantes se reuniram às 17h30 na Câmara de Vereadores no Centro da cidade e o protesto só terminou na frente do Pronto Atendimento da cidade, por volta das 21 horas.

CÂMARA – Antes disso, familiares de Sofia, acompanhados de moradores, lotaram a Casa Legislativa. Com tantas pessoas clamando por justiça, o plenário não teve espaço para acomodar os presentes que precisaram se espremer do lado de fora. E tão logo a sessão começou, logo precisou ser encerrada pelo presidente, Nivaldo Ramos (União Brasil), assim que o vereador Caio Pinheiro (PL) subiu à tribuna.

Durante o discurso, o vereador do Partido Liberal, que estava perdido e não sabia sequer quem era a mãe de Sofia ou o nome dela, acabou incitando os manifestantes ao afirmar que um determinado candidato ao executivo municipal, presente no local, estaria se utilizando do momento para se promover e que isso ‘era uma falta de respeito’.
Em meio à vaias e revolta dos presentes, o vereador não teve muito o que fazer a não ser se calar e posteriormente (após a sessão ser encerrada) se retirar do plenário, ao ouvir que era motivo de vergonha no partido do qual representa. Manifestantes contrários a fala do vereador, diziam que se no atual momento ele estava ali, representando o povo, um dia foi candidato e nem por isso foi impedido de frequentar qualquer local público.
Veja o vídeo do vereador clicando no link.
VOZ – Com a ânsia de serem ouvidos, o presidente da Casa, Nivaldo Ramos (União Btasil), explicou aos manifestantes que precisaria encerrar a sessão pois o Regimento Interno não permite manifestações do público, e só assim, a porta voz da família e dos presentes, Rubiani Leal, pode subir à tribuna e desabafar o que precisava ser dito aos parlamentares.
“Enquanto estamos aqui, lá no PA existe outra criança, prima da Sofia, desde às 4 horas da tarde esperando por transferência urgente para uma unidade de saúde com capacidade para atender ao caso dela. Ela está grave, com quase os mesmos sintomas da Sofia. Mais uma criança vai precisar morrer para que uma atitude drástica seja feita? Queremos justiça, queremos a exoneração do secretário, queremos condições dignas na saúde, queremos melhores estruturas, queremos exames com resultados rápidos”, pontou.

Após as declarações da porta voz, com exceção do vereador Marcelo Nogaroli (MDB), do vereador Claudionir Arbigaus (PP) e do presidente da Casa, todos os vereadores se retiraram do plenário e somente os três ficaram para ouvir o clamor dos manifestantes.
Após ouvirem e entenderem que a exoneração do gestor da saúde não dependia do Legislativo e sim do Executivo, os manifestantes decidiram seguir para o Pronto Atendimento. Antes, os presentes desafiaram os vereadores a, naquele momento, fazerem uma visita/vistoria à unidade médica. Nesse instante, apenas Nogaroli acompanhou.

PA – Na unidade, o vereador acompanhou o drama de dezenas de pacientes que esperavam faziam horas por atendimento, e alguns mais graves, por transferência. Nos corredores, nas Alas e na sala de medicação, o parlamentar conversou um a um com os servidores e pacientes que lotavam o Pronto Atendimento.

Dentre os pacientes, uma estrangeira russa de apenas 4 anos de idade, com os mesmos sintomas de dengue apresentados por Sofia.

Outro, um idoso de 72 anos que caiu de uma escada e ainda não havia sido transferido e uma gestante de 9 meses que apresentava contrações há horas e aguardava em pé pela transferência. No caso mais grave, da prima da Sofia, a transferência só ocorreu após o clamor popular, porém, os outros pacientes não haviam sido atendidos até o fim da manifestação.

“Sabemos que no calor das emoções, principalmente quando uma tragédia como essa acomete uma família, é natural que todos os envolvidos exijam por uma resposta imediata aos seus anseios, porém, não é só aqui, mas em todo o Brasil, existem trâmites, burocracia, e se fosse depender de um pedido da Casa, o desligamento do gestor não seria da noite para o dia. Quanto ao meu papel como vereador, quem acompanha meu trabalho sabe que desde sempre veio cobrando, fiscalizando, mas uma andorinha só não faz verão”, concluiu Nogaroli.
EXONERAÇÃO – Pouco depois das 20h30 o prefeito Daniel Cunha, chegou ao PA. Acompanhado pelos manifestantes o gestor que assumiu o executivo há dois meses, após a prisão do prefeito Douglas Elias da Costa, por corrupção, ouviu a reclamação dos servidores e denúncias de negligências, perseguição e abusos cometidos dentro da unidade médica pelo então secretário.
“Assumi a prefeitura há pouco tempo e sabemos que a situação enfrentada por Barra Velha é muito semelhante a de outras cidades catarinenses, com o caos instalado pela epidemia da dengue. A doença é uma preocupação nacional e até internacional, tem ceifado muitas vidas, mas isso não justifica o que aconteceu aqui. Por isso, de imediato, logo após a morte da Sofia, instauramos uma sindicância para apurar todos os fatos”, explicou Daniel.
A primeira atitude tomada pela prefeitura, segundo Cunha, foi afastar um dos médicos que atendeu a criança. “Nosso papel não é julgar ou punir alguém, mas sim investigar. Os culpados serão penalizados, mas os inocentes deverão receber o tratamento digno. O fato é que uma criança morreu e a culpa é do poder público, isso não podemos negar. O MP e a Polícia Civil irão, com celeridade espero eu, chegar ao final da investigação com uma resposta para todos, mas até lá, nossa segunda atitude foi exonerar o secretário”, pontuou o prefeito ao ser ovacionado em meio a salvas de palmas.

Antes de encerrar, o prefeito também ouviu relatos emocionantes de servidores que se dizem pressionados e até perseguidos pela então gestão, e ouviu casos inclusive de demissão sem justa causa e até ofensas por parte do secretário exonerado. “Realmente eu não sabia o que estava acontecendo, se tudo se confirmar além de absurdo é inadmissível, nós somos os funcionários do povo, estamos aqui pelo povo”.
Pacientes e parentes de pacientes que há meses esperam por atendimento, também relataram a tortura da falta de atendimento e morosidade em casos que deveriam ser tratados com urgência. O prefeito afirmou que haverá uma restruturação nos cargos, mas ainda não anunciou um nome. “Muito me pedem uma pessoa qualificada, um médico para assumir a secretária. Aí eu pergunto: qual médico vai querer ganhar R$ 7 mil reais para assumir a saúde?”
SECRETÁRIO – Por telefone, depois de saber da exoneração, o secretário de saúde Rogério Pinheiro, falou ao portal que: “No momento não tenho nada a declarar, mas me solidarizo com a família”
GABINETE DE CRISE – Sobre montar uma ‘tenda’ específica para atendimentos da dengue, o prefeito disse que acha injusto e indigno com os moradores, colocá-los expostos praticamente no tempo. “Já tentei várias saídas, já busquei outros prédios, porque aqui [PA] não temos espaço suficiente e a demanda está aumentando a cada dia, ainda não encontramos uma solução, mas vamos achá-la. Também já estive em Brasília em busca de soluções, mas volto a repetir, se a situação está difícil hoje, infelizmente ela pode piorar”.
CASO – Tudo teria começado na quarta-feira, 27, quando a Sofia, com muita febre, foi levada ao Pronto Atendimento de Barra Velha, com sintomas graves de dengue, em busca de socorro. A jornada só teve fim no domingo, com a morte da criança que sofreu muito até ser finalmente diagnosticada com dengue hemorrágica.
Segundo a família, durante cinco dias: de quarta até sábado, 30, a menina não tinha um diagnóstico conclusivo sobre o problema ao qual enfrentava. Um médico do Pronto Atendimento de Barra Velha afirmou que ela estava com gastroenterocolite bacteriana e depois de medicá-la, a teria mandado para casa.
Somente no sábado, 30, após transferência para um hospital em Jaraguá do Sul, foi confirmado que Sofia estaria com dengue hemorrágica. Ela não resistiu e morreu na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) no domingo, 31.
ÁUDIO – A exoneração do secretário Rogério Pinheiro, tomou força após um áudio vazado nas redes sociais na segunda-feira, 01, onde ele afirmava que iria provar que a culpa do que aconteceu com Sofia, era da própria mãe dela, a desempregada Ana Maria de Oliveira Ribeiro. (leia na íntegra a transcrição).
“Boa tarde a todos. Perante esse vídeo que essa Rubiani [Rubiane Campos Leal é da mesma igreja que Ana e prestou auxílio à família] gravou aí, eu serei chamado na Câmara de Vereadores, tá? Os vereadores já estão mandando mensagem aqui. Eu vou ver a data certinho, queria que o Dr. Wesley fosse comigo pra gente explicar como explicamos aquela outra vez. A gente vai levar o prontuário tudo e vai mostrar que a ‘culpa é da mãe’ e ‘não do Pronto Atendimento’, da enfermagem, do médico, tá? Mas iremos lá sim e iremos tentar defender toda a equipe aí que tá lá, lá trabalhando da melhor forma possível, né? Nem sempre com todas as condições necessárias. A gente sabe que estamos longe, né, de ter tudo que precisamos, né, no Pronto Atendimento, mas a equipe tá lá dando cara a tapa dia a dia tá bom? Sérgio, pode, pode transmitir esse meu áudio aí pra equipe? Tá? E eu serei o primeiro a estar lá na Câmara de Vereadores defendendo toda a equipe. Um abraço a todos”.
Na terça-feira, 02, por meio das redes sociais, o secretário Rogério Pinheiro publicou um vídeo pedindo desculpas à família de Sofia e disse que o áudio em questão, vazado de um grupo apenas para servidores, teria sido compartilhado antes da morte ser constatada e que teria haver com outra situação, a qual ele preferiu não falar. Segue link.
A matéria completa sobre o áudio e mensagem compartilhada nas redes sociais você pode acompanhar acessando o seguinte link.
MPSC – O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) instaurou, nesta segunda-feira, 01, ‘uma notícia de fato’ (NF) para apurar a suposta negligência no atendimento médico prestado no Pronto Atendimento de Barra Velha a uma criança que teria falecido por complicações decorrentes de dengue hemorrágica.
Segundo consta na NF, a menina, de apenas 4 anos de idade, teria sido atendida em três ocasiões no Pronto Atendimento municipal e liberada para retornar ao seu domicílio.
O MPSC deu prazo de 48 horas a todos os envolvidos, inclusive à delegacia de Polícia Civil de Barra Velha para instaurar inquérito Policial.
PREFEITURA – Em nota a Prefeitura informou que irá instaurar sindicância: “ A Secretaria Municipal de Saúde de Barra Velha se solidariza com os familiares e amigos da Sofia Emanueli Ribeiro Pereira neste momento de profunda dor.
Diante da gravidade dos fatos e comprometidos com a transparência pública das ações e serviços de saúde, serão iniciados procedimentos de sindicância para apurar eventuais irregularidades, bem como todos os aspectos dos atendimentos prestados a paciente”.








